Comerciantes da Baixa com ideias, mas “a remar contra a Câmara”

Depois de um périplo pela Alta, onde tomaram contacto com as dificuldades dos comerciantes da zona, os vereadores do Somos Coimbra, Ana Bastos e José Manuel Silva, rumaram até à Baixa para perceber quais os problemas que comércio local atravessa nesta altura de grandes dificuldades económicas. Apesar do relato de diferentes problemas, há uma preocupação latente: até quando os comerciantes vão resistir? Esta é apenas a primeira reportagem feita a partir dos testemunhos dos comerciantes da Baixa; os vereadores do Somos Coimbra vão voltar a falar com estes e outros resistentes.


O percurso começa no centro da Rua da Sofia, classificada como Património da Humanidade em junho de 2013. No entanto, como sublinham diversos comerciantes, não há indicações na rua a alertar para esta classificação. A nova sinalética relativa ao património da UNESCO foi colocada recentemente, apesar de já terem passado sete anos desde o anúncio, mas parece não preencher as medidas dos comerciantes, para quem ainda passa despercebida. Por outro lado, no dia deste passeio do Somos Coimbra, também não havia qualquer monumento aberto, facto que os comerciantes dizem ser recorrente. Ao contrário da Alta e da Universidade, a classificação da Rua da Sofia como Património da Humanidade pouco se nota para quem nela circula diariamente, como já mostrava o “Público” há dois anos.


O movimento pós almoço ainda se sente pela azáfama dos pratos e dos talheres, ou da máquina de café a trabalhar sem parar. Minutos depois, a circulação acalma e o café fica apenas com uma mesa ocupada. É nessa altura que a proprietária do estabelecimento arranja uma janela de tempo para falar com os vereadores do Somos Coimbra, ainda sem almoçar. Porém, a falta de almoço não se nota na vontade de falar. Os mais de 40 minutos de conversa, apesar de passarem a correr, são repletos de críticas ao atual estado da cidade, mas também são preenchidos com inúmeras ideias para dinamizar a Baixa.


O que não faltam são ideias para dinamizar o Terreiro da Erva


Uma das ideias que tem mais amadurecidas é a dinamização do Terreiro da Erva, mesmo em frente ao seu café. E as propostas são várias: um mercadinho com os diversos comerciantes da Rua da Sofia e da restante Baixa; um posto de turismo dinamizado pela Câmara Municipal de Coimbra (CMC) e que mostre as atividades que os agentes culturais da zona dinamizam; um “centro de memórias” com imagens antigas que conte a história da antiga Igreja de Santa Justa; ou ainda uma estátua de um estudante que atraia as pessoas ao local para a típica fotografia. A lista é completa e bem amadurecida, e algumas das propostas já chegaram a ser apresentadas a representantes da autarquia, mas até hoje não foram consideradas.


A par do Terreiro, as ideias para a própria Rua da Sofia também vão surgindo em conversa. Ao contar que o impacto da classificação tem sido praticamente nulo, a proprietário do café revela como parte dos edifícios classificados estão degradados, alguns mesmo a cair, e fechados a sete chaves. Mas, na sua ótica, a solução passa por abrir estes locais e promover visitas guiadas ao longo da Rua.


A conversa é interrompida por uma das poucas clientes que tinha resistido à azáfama da hora de almoço, que tem de pagar a conta. A conversa com a proprietária denota uma intimidade que transparece a rotina de quem vai todos os dias ao café. E é a partir deste episódio que surge mais um tópico na conversa: a solidão das pessoas idosas que residem na Baixa. “Aqui não há nada que eles possam fazer nem para onde possam ir passar o tempo. Passam o dia sozinhos em casa”, explica. E, novamente, tem uma ideia: porque não um centro de dia para os idosos na Baixa da cidade?


A par dos idosos, a preocupação com as crianças é também explorada. “Já reparam que em toda a Baixa não há um único parque infantil para levarmos as nossas crianças?”, questiona. E o silêncio é imperativo. De facto, à volta da mesa do café ninguém é capaz de dar um exemplo de um espaço do género na zona. A conversa vai longa e é preciso voltar a dar atenção aos clientes que começam a aparecer, bem como continuar a ouvir outros testemunhos. O agradecimento pela possibilidade de dar a conhecer as suas ideias é acompanhado com a boa disposição com que estimula os vereadores do Somos Coimbra para mudarem a cidade.


Uns metros à frente chegamos a uma pequena, mas acolhedora, papelaria. Em cima da sua mesa de trabalho, o proprietário começa por mostrar vários vouchers de municípios vizinhos de Coimbra, relativos aos cadernos de exercícios de alunos do primeiro e do segundo ciclo. Estes vouchers, atribuídos pelos municípios, permitem que os encarregados de educação escolham onde adquirir gratuitamente estes materiais e, neste caso, aquele foi o local escolhido. Curiosamente, em cima da mesa não há nenhum voucher da CMC, nem nunca houve, garante o proprietário. Ao contrário da maioria dos municípios, a CMC não atribui os vouchers aos encarregados de educação para que estes possam escolher onde os comprar e entrega diretamente os cadernos de exercícios às crianças. Mas onde adquire a CMC estes manuais? O proprietário da papelaria, que é uma pessoa que domina o setor livreiro, onde sempre trabalhou, garante que em Coimbra é que não é. “Nem nesta altura ajudam o comércio local”, lamenta.




E há mais exemplos para demonstrar esta falta de apoio. Após o encerramento forçado durante a pandemia da COVID-19, logo no dia da reabertura, conta que foi visível a inflexibilidade da polícia municipal, que esteve presente a multar apenas “quem parava cinco minutos para descarregar material de encomendas”. No entanto, lamenta que noutras alturas, e em locais mais críticos da Baixa, haja falta de policiamento, mesmo quando este é pedido pelos próprios comerciantes. A par da segurança, refere também o problema da limpeza da Rua da Sofia e da Baixa em geral, que é um fraco cartão de visita do centro histórico. A distinção feita entre as ruas Visconde da Luz e Ferreira Borges e a restante Baixa é também um dos inconvenientes que vê na cidade.


O seu discurso é dos mais críticos e dos mais crus, mesmo quando confrontado com o sentido de compromisso dos vereadores do Somos Coimbra. “O comércio não sobrevive até às autárquicas do próximo ano”, garante. Ainda assim, fala em propostas e talvez a solução passe por atrair mais gente à Baixa e promover o comércio local. E, para tal, ajudaria um parque de estacionamento, por exemplo, no Terreiro da Erva.


“A Baixa tem de ser um sítio em que as pessoas se sintam seguras”


Todos os comerciantes com quem o Somos Coimbra falou, sem exceção, apontaram a toxicodependência como o maior flagelo da Baixa. Muitos referem mesmo que o problema vai persistir enquanto algumas associações de apoio não forem transferidas da Baixa para outro local da cidade. Relatos de tráfico e consumo de droga foram uma constante durante toda a visita. “A solução é retirar estas instituições da Baixa, mas a CMC não tem vontade de o fazer”, lamentam. Apesar da recente requalificação do Terreiro da Erva, parece ter sido “em vão” para resolver este problema.

A questão da segurança é uma preocupação transversal: “a Baixa tem de ser um sítio em que as pessoas se sintam seguras”. Caso esta imagem não seja trabalhada pela autarquia, a Baixa vai continuar a ser um local indissociável deste estereótipo negativo e incapaz de atrair as pessoas.

Já na Rua Simões de Castro, chegamos a uma loja de iluminação. E, antes de falar nos problemas dos comerciantes da Baixa, há que dar atenção ao vizinho Sport Clube Conimbricense. A proprietária da loja é também dirigente do histórico clube desportivo da cidade e conta que o Conimbricense está à “espera que a Câmara entregue o terreno que prometeu e que até hoje ainda nem sequer escritura fez”. Mesmo com a história do clube consolidada em várias modalidades ou mostrando a inovação, por exemplo, com uma equipa de futsal de invisuais, a instituição atravessa várias dificuldades, salientando-se a falta de um espaço digno do clube.

De volta ao comércio que ilumina a Baixa, há uma constatação nova: “deixaram fugir as lojas todas que podiam chamar gente”. A possibilidade de tornar a Baixa atrativa está, na ótica da lojista, na capacidade de fixação de lojas âncora na zona, que pudessem atrair mais pessoas ao comércio local, em vez de escolherem os grandes espaços comerciais. E, neste caso, a autarquia deveria ter um papel mais ativo. No entanto, reconhece: “os comerciantes da Baixa e os conimbricenses também são culpados do que se está a passar porque votam sempre nos mesmos, e os mesmos é que lá ficam”.


A dinamização do comércio da Baixa com a promoção de iniciativas que unam os diversos espaços é também uma das ideias que deixa, como tem tentado fazer a Associação AICEC – Associação Indústria, Comércio Empresas Coimbra, da qual faz parte. A conversa foi das mais curtas, porque foi interrompida por clientes. E, sobretudo nesta altura, há que agarrar todas as oportunidades. Os vereadores do Somos de Coimbra retiram-se discretamente, mas prometem voltar para explorar mais ideias.


“As pessoas já nem querem lutar porque estão a remar contra a Câmara”


Percorridas mais umas ruelas da chamada Baixinha é visível a quantidade de edifícios devolutos e abandonados que integram a paisagem. Em alguns locais são mesmo notórios vários perigos para a saúde pública. No entanto, chega-se à Rua João Cabreira e a paisagem muda drasticamente. As grandes janelas de um café amigo dos animais já deixam antever um ambiente harmonioso que contrasta com a imagem envolvente: diversos gatinhos enroscados a dormir ao sol, outros lá mais atrás a brincar. O espaço junta as valências de cafetaria e uma sala de animais, que podem ser visitados ou até adotados.

A jovem proprietária fica contente com esta visita, e também se mostra cheia de ideias para a Baixa. Uma vez que a Baixa tem ruas e ruelas, tornando-se um pouco labiríntica, a solução passa por apostar numa sinalética compreensiva, onde constem não só os nomes das ruas como os vários espaços comerciais que existam. Poder-se-ia até apelar à participação e a criatividade dos conimbricenses. O melhor é que esta até pode ser uma ideia feita de graça, sugere a proprietária, ao ser lançada como uma espécie de concurso de ideias para os estudantes dos vários cursos de Artes que existem na cidade. Muita gente desconhece a diversidade do comércio que existe na Baixa, porque não passa da Visconde da Luz ou da Ferreira Borges. “As próprias pessoas de Coimbra já nem conhecem os espaços da Baixa”, lamenta. Para além disso, o mau aspeto da Rua Direita não permite que as pessoas tenham vontade de descobrir as restantes ruelas, o que faz com que se cinjam apenas à Praça 8 de Maio. A propósito, recorda-se a proposta da Associação para a Promoção da Baixa de Coimbra, da criação da marca “Baixa de Coimbra”, divulgada na recente tertúlia promovida pelo Somos Coimbra, pela voz da sua presidente, Assunção Ataíde.


As ideias são muitas e parecem trabalhadas há algum tempo, mas a falta de apoio e de envolvência da autarquia na dinamização do comércio local da Baixa parece estar adormecida. Ainda assim, a proprietária recorda uma iniciativa da CMC que “correu muito bem” e que atraiu muita gente à Baixa: a mostra de estátuas vivas. “Por que razão não temos mais coisas destas?”, questiona, ao mesmo tempo que lembra o recente Festival das Sopas. Criado para atrair clientes no pós COVID-19, não teve o mesmo impacto porque, refere, não teve a envolvência formal do município. E é este exemplo que leva o seu discurso otimista por uma Baixa dinâmica a uma resignação latente: “as pessoas já nem querem lutar porque estão a remar contra a Câmara”.



De volta à Rua Simões de Castro, e já perto da hora de jantar, o cheiro a churrasco é notório. Em volta dos preparativos para o jantar, o proprietário do espaço desde há ano e meio reconhece os vereadores e acede a dar o seu testemunho. Num tom bastante crítico, dá conta “dos muitos problemas” da Baixa e da cidade. Para evidenciar a falta de iniciativa da autarquia, conta a história do seu estabelecimento. Esteve dois anos para abrir o espaço, só “à espera de burocracias da Câmara”. Inacreditável, mas não é caso único, tal como o Somos Coimbra demonstrou na visita que fez pela Alta.


Apenas com um ano e meio de casa, e com uma pandemia que o obrigou a encerrar, conta que está a passar por uma quebra na ordem dos 70%, o que o leva a dizer que “está a sobreviver, mas à rasca”. Quando questionado se a CMC não deveria ajudar para evitar estas quebras no comércio local, a resposta é perentória: “se calhar até ajuda, mas é só os amigos”. E reconhece que tem de haver uma mudança na autarquia, “com outras ideias”, que permitam que a cidade não se conforme como tem feito até aqui.


É com este compromisso e necessidade de mudança que a visita termina. Muitos espaços ficaram por visitar, mas os vereadores do Somos Coimbra não querem que esta visita ao comércio da Baixa seja um caso único. O trabalho de campo, o registo dos problemas, a reunião de ideias e soluções por uma Baixa e por uma cidade mais atrativa e dinâmica são para continuar. Para já, há que registar os problemas que enfrentam estes comerciantes e lutar para que um novo executivo possa dignificar o comércio local que tem no centro histórico o seu ADN.


agosto de 2020

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