Evolução Demográfica

Catástrofe demográfica em Coimbra

1. Evolução global da população residente

A população residente do concelho de Coimbra[1] atingiu um pico por volta de 2001, com cerca de 148 mil habitantes. Tem tido uma forte tendência decrescente desde essa altura, baixando para 134 mil habitantes em 2019, uma diminuição de 10% desde 2001. No mesmo período a variação negativa da população residente em Portugal foi de apenas 1%.

Que a perda populacional de Coimbra é bastante pior que a média do país pode ver-se também olhando para o facto de a população residente de Portugal ter atingido o seu ponto mais alto em 2009, com 10,57 milhões de habitantes, tendo descido a partir daí para 10,27 milhões em 2019, uma variação negativa de 2,6%. Comparativamente, nesses mesmos dez anos a variação negativa da população residente de Coimbra é de 7%.

Portanto, a população residente em Coimbra atingiu o seu pico cerca de 8 anos antes do conjunto do país e, desde essa altura, a sua diminuição tem sido muito mais pronunciada do que a do país no seu conjunto. Não se trata de um efeito resultante apenas da diminuição geral da natalidade, mas antes da saída de muitos residentes do concelho de Coimbra para outras zonas do país e para o estrangeiro, num sinal claro de falta de atratividade do concelho. Importa olhar para esta evolução com mais detalhe.

2. Evolução por faixa etária

Em 2001 o INE (Instituto Nacional de Estatística) começou a calcular a população residente de cada concelho por faixa etária, sendo esse cálculo feito anualmente a partir de 2008, o que permite uma análise mais fina da evolução demográfica.

2.1. Situação no concelho de Coimbra

O Gráfico 1 e a Tabela 1 mostram a variação da população do concelho de Coimbra, por faixa etária, de 2001 a 2019, que são os anos mais afastados para os quais há dados disponíveis. 2001, como já indicado, foi um ano de pico de população residente em Coimbra, pelo que a análise deste intervalo temporal permite perceber melhor como se deu o decréscimo demográfico no concelho.

Esta análise revela um comportamento muito desigual nas várias faixas etárias: de 2001 a 2019 Coimbra ganhou população idosa e perdeu população jovem, essencialmente em idade ativa[2], sendo que a diminuição se deu essencialmente nas faixas iniciais da idade ativa. O decréscimo máximo ocorre entre os 24 e os 29 anos, que é a faixa etária em que, tipicamente, as pessoas com formação superior procuram o primeiro emprego.

As variações positivas ocorrem apenas nas idades mais elevadas, sendo a variação positiva mais forte na faixa etária mais tardia, acima dos 85 anos, onde mais do que duplica a população. Como, em 2001, eram estas as faixas etárias onde a população era mais baixa, a subida nestes grupos etários, embora significativas, não compensam a descida nas faixas etárias mais novas, havendo no conjunto um claro decréscimo global da população, já assinalado antes.

A tabela seguinte contém os dados base dos gráficos:

Um comportamento tão desigual nas várias idades, com perdas muito elevadas nas idades mais baixas e ganhos apenas nas idades mais avançadas, constitui uma perspetiva de evolução para o concelho de Coimbra muito mais negativa do que se a perda populacional estivesse uniformemente distribuída por todas as idades.

Com efeito, se considerarmos apenas as idades entre os 15 e os 64 anos, que é o intervalo tipicamente considerado como a idade ativa, a diminuição de população de 2001 a 2019 é de 20.185, muito superior à diminuição global de 14.106 habitantes; passa-se de 102.590 habitantes para 82.405, uma diminuição de 19,7%, duas vezes pior que a evolução geral da população do concelho. Esta diminuição da população ativa tem vindo a acelerar: na primeira metade do período em análise (2001 a 2010), a diminuição foi de 5.802 pessoas, mas na segunda metade (2010 a 2019) a perda foi 14.383 pessoas.

Distinguindo-se Coimbra em primeiro lugar pela sua oferta de ensino superior de grande qualidade e dimensão, a análise da evolução da faixa etária que corresponde à procura do primeiro emprego depois de terminada a formação superior é particularmente relevante e, infelizmente, é precisamente a faixa etária onde a evolução demográfica em Coimbra é pior[3]. Entre os 25 e os 29 anos havia, em 2001, 11.947 habitantes no concelho de Coimbra, mas em 2019 já só restavam 5.559. Em 18 anos Coimbra perdeu mais de metade desta faixa etária: 53,5%. É uma catástrofe telúrica, porque esta faixa etária é aquela que mais determina o futuro: são os que vão constituir família, construir uma carreira, ter filhos. Se esta tendência não for rapidamente invertida o declínio de Coimbra será ainda mais rápido do que já está a ser.

É importante realçar que, como se vê bem no gráfico 1, a evolução negativa da população em idade ativa não é uma consequência direta da baixa de nascimentos, pois na faixa etária inicial (0 aos 4 anos), a descida tem sido muito mais pequena: de 2001 a 2019 a perda, embora também preocupante, é de apenas 14% e, antes de 2001, a evolução era seguramente menos negativa, pois a população geral do concelho ainda estava em crescimento.

 

Nas faixas etárias mais elevadas há um aumento de população que importa também analisar, pois dois fatores podem explicar esse aumento: o aumento da esperança média de vida, e a atração de idosos de outros locais. Infelizmente, é praticamente só o primeiro fator que está em causa, pois a capacidade de o concelho atrair idosos é muito pequena.

Efetivamente, se compararmos residentes em Coimbra e no país com 60-64 anos em 2001 na sua evolução para 2019 (são as ‘mesmas pessoas’ 20 anos mais velhas), verificamos que no país passaram de 540.287 (60-64 anos em 2001) para 353.254 (80-84 anos em 2019), ou seja, uma redução de 34,6%, essencialmente relacionado com a mortalidade. Os mesmos números, em Coimbra, são 7988 e 5139, uma redução de 35,7%. A percentagem é sensivelmente a mesma, embora um pouco pior, ou seja, Coimbra não atraiu pessoas idosos para cá virem morar, foi a evolução demográfica normal que proporcionou um aumento dos residentes idosos, fruto do aumento da esperança de vida e certamente do aumento da população dos anos 40 para os anos 60 do século passado.

Comparando os residentes com 40-44 anos em 2001 com os ‘mesmos’ residentes de 60-64 anos em 2019, verificamos que no país passaram de 737.883 (40-44 anos em 2001) para 676.762 (60-64 anos em 2019), uma redução de 8,3% (uma faixa ainda pouco afetada pela mortalidade). Em Coimbra os números são 10.837 e  9.787, que representa uma redução de -9,7%. Mais uma vez, uma redução ligeiramente superior em Coimbra, mas da mesma ordem de grandeza.

Comparando agora os residentes com 20-24 anos em 2001 com os ‘mesmos’ residente de 40-44 anos em 2019, verificamos que no país passaram de 771.492 (20-24 anos em 2001) para 784.224 (40-44 anos em 2019), um aumento de 1,7% (certamente devido à imigração). Em Coimbra os números correspondentes são 11.679 e 9.758, uma redução de -16,5%. A diferença para o país é enorme e demonstra como desde há muitos anos os mais jovens têm dificuldades em se fixar no concelho de Coimbra, por razões relacionadas essencialmente com os mercados de trabalho e de habitação, obrigando os residentes em Coimbra a emigrarem para fora do concelho.

Daqui a 20 anos, o impacte demográfico em Coimbra, em consequência da redução dos residentes nas faixas etárias mais jovens, será tremendo, se nada mudar entretanto.

Esta perspetiva dinâmica torna bem evidente o drama demográfico que Coimbra enfrenta nas próximas décadas, quando as faixas etárias dos mais idosos deixarem de aumentar, um fenómeno que durante alguns anos ainda permitirá mitigar o efeito da redução de residentes nas faixas etárias mais novas.

 

2.2. Comparação com os outros concelhos

É muito relevante saber se a evolução demográfica negativa do concelho de Coimbra é semelhante, pior ou melhor que a evolução de outros concelhos do país. Se for semelhante, os fatores em jogo são exteriores ao concelho, e só uma ação nacional poderá inverter a tendência. Se for pior que nos outros, os fatores internos ao concelho são determinantes. Os dados seguintes mostram que a evolução demográfica no concelho de Coimbra é das piores do país, o que aponta para a prevalência de causas internas ao concelho.


O gráfico seguinte mostra a posição relativa do concelho de Coimbra no universo dos 308 concelhos de Portugal. Na faixa etária dos 50 aos 54 anos, por exemplo, estamos na posição 254, o que significa que há 253 concelhos com uma evolução demográfica melhor do que Coimbra, e 54 concelhos que estão pior (308-254). Dito de outra forma, 82% dos concelhos do país têm uma evolução melhor do que Coimbra nesta faixa etária, o que nos coloca claramente na cauda do país.

 

No caso dos recém-diplomados com formação superior, a faixa dos 25 aos 29 anos, é que a situação do concelho de Coimbra é pior. Em 2019, só o concelho da Chamusca está pior do que Coimbra. Mesmo as ilhas, quer dos Açores quer da Madeira, quer concelhos remotos como Barrancos, Penamacor ou Vinhais têm uma evolução menos negativa do que Coimbra.

Na idade ativa só estamos na primeira metade da tabela na faixa etária mais idosa (60 aos 64 anos), e mesmo aí na pouco honrosa nonagésima sétima posição. Em todas as outras faixas entre os 15 e os 64 anos estamos na segunda metade da tabela. Entre os 20 e os 34 anos estamos mesmo na cauda do país.

2.3. Comparação com outras capitais de distrito da região centro

Coimbra é uma cidade de dimensão média localizada na região centro de Portugal, o que determina algumas das condicionantes a que está sujeita, por exemplo a atração das duas grandes áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, que tendem a esvaziar a região centro. A comparação entre as outras cidades médias da região, antigas capitais de distrito, é uma perspetiva de análise relevante, concretamente Aveiro, Castelo Branco, Coimbra, Guarda, Leiria e Viseu.

A tabela 2 mostra a variação, de 2001 a 2019, da população ativa (15 a 64 anos), nestas cidades [4]:

 

 

 

 

 

Verifica-se que as outras duas cidades litorais (Aveiro e Leiria) mantiveram a sua população ativa, tendo Aveiro até aumentado um pouco. Viseu, apesar de ser uma cidade do interior, também a manteve. Guarda e Castelo Branco perderam cerca de 10% da população ativa, mas mesmo assim apenas cerca de metade da quebra registada por Coimbra. Coimbra destaca-se fortemente pela negativa em relação a todas as outras.

Para olharmos um pouco mais para futuro podemos analisar a evolução da faixa etária que vai ser mais decisiva nesse futuro, concretamente as pessoas que estão no início da sua carreira profissional, que aqui consideramos ser a faixa etária que abrange quem obtém formação superior e está na primeira parte da sua vida profissional, concretamente entre os 25 e os 40 anos. Essa evolução pode ver-se na tabela 3.

Constata-se que há um claro problema de esvaziamento da região centro, pelo efeito duplo do decréscimo da natalidade e da migração para as áreas metropolitanas e estrangeiro, mas Coimbra tem o problema mais grave, sendo de novo, destacadamente, a cidade com o comportamento mais negativo na região.

 

2.4. Comparação com Portugal

A evolução da população no concelho de Coimbra é muito má também no panorama nacional. No gráfico seguinte está representada a média nacional de variação por faixa etária, na idade ativa, de 2001 a 2019, constatando-se que Coimbra está sempre muito abaixo da média. Um afastamento tão consistente tem de ter uma justificação estrutural, não é fruto do acaso, só se conseguindo explicar pela falta de oferta de emprego.

 

Na tabela seguinte estão os dados de base, abrangendo todas as faixas etárias:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3. Notas finais

A evolução demográfica do concelho de Coimbra é profundamente preocupante.

Sendo um concelho com um sistema de ensino de grande dimensão e qualidade, com enorme reconhecimento internacional, um sistema de saúde igualmente de grande dimensão e qualidade, bem integrado na rede de transportes portuguesa, com ligação direta à mais importante autoestrada e linha férrea portuguesas, a pouco mais de uma hora de um aeroporto internacional e a duas horas de outro, com boas infraestruturas e atividade cultural, parece dispor, à partida, das condições essenciais para ser um concelho em grande desenvolvimento.

No entanto, a evolução extremamente negativa da população, em particular a quebra catastrófica, para menos de metade em apenas 18 anos, da faixa etária em que se incluem os residentes com formação superior à procura do primeiro emprego, mostra que há uma deficiência muito grave no modelo de desenvolvimento que tem vindo a ser seguido. Essa falha é essencialmente local, pois os índices demográficos de Coimbra são muito piores que a média nacional, tal como em relação a concelhos que não têm as condições estruturais de Coimbra, sendo igualmente notório esse défice na comparação com as outras cidades de dimensão média da região centro. Com uma perda tão concentrada nas faixas etárias em que os casais têm filhos, só se pode esperar uma aceleração da perda demográfica do concelho; se a perda demográfica de 2011 a 2019 foi de aproximadamente 10%, nos 18 anos seguintes, até 2037, a manterem-se as mesmas tendências, é de esperar uma redução que se aproxime de 20%.

O sistema de ensino superior de Coimbra tem uma grande capacidade de atração de jovens, mas manifestamente estes, depois de diplomados, não ficam no concelho, pois se ficassem isso refletir-se-ia nas estatísticas dos residentes. A evolução fortemente negativa na faixa etária dos que procuram primeiro emprego após formação superior, praticamente a pior do país, mesmo em comparação com concelhos com muito piores condições estruturais, mostra que Coimbra tem atualmente uma incapacidade profunda para oferecer emprego aos milhares de jovens que por ela passam. Essa incapacidade de fixar população ativa jovem, a não ser revertida rapidamente, levará a uma decadência muito rápida do concelho de Coimbra. Este resvalamento já está em andamento pleno.

 

Pode ler o estudo em pdf aqui

[1] Salvo indicação em contrário os dados usados neste relatório são do INE - Instituto Nacional de Estatística, obtidos na Pordata, concretamente em "Pordata> Municípios> População> População Residente> Estimativas a 31/12" e, quando desagregados em faixas etárias, em "Pordata> Municípios> População> População Residente> Estimativas a 31/12 por grupo etário"

[2] A idade ativa vai dos 15 aos 64 anos, conforme metainformação associada aos indicadores da Pordata em "Pordata>Portugal>Emprego e Mercado de Trabalho>População Activa"

[3] Note-se que a existência de muitos estudantes deslocados em Coimbra, que vêm para a cidade fazer os seus estudos superiores, não interfere com estes dados, pois só os residentes são contabilizados. 

[4] Os valores apresentados são os dos respetivos concelhos e não apenas das cidades em si, pois os dados dos concelhos são os que estão disponíveis. Considera-se que se mantém a comparabilidade, até porque, estando em análise o comportamento dos municípios, o comportamento do concelho, e não apenas das cidades, é de facto a perspetiva de análise mais relevante.

 

 

Estudo feito por João Gabriel Silva (Comissão Política do Somos Coimbra), a 8 de dezembro de 2020

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