As vozes dos resistentes da Alta

Guiados pelo olhar de comerciantes, os vereadores do Somos Coimbra, Ana Bastos e José Manuel Silva, tiveram oportunidade de conhecer a Alta da cidade de uma outra forma. Uma Alta sem dinamização, pouco iluminada e muito desacreditada em relação a melhores tempos. O Somos Coimbra registou estes desabafos e vai levar os diversos problemas levantados à instância adequada.


O ponto de partida foi o nº 50 da escadaria do Quebra Costas. Depois de uma rápida visita à loja de Açaí aí situada, ainda sem movimento às 10horas da manhã, cedo se percebe das dificuldades, ou mesmo da impossibilidade, que os comerciantes do Quebra têm para conseguirem uma esplanada, de forma a responderem aos novos desafios causados pela pandemia de COVID-19. A falta de espaço nas escadas e o facto de ser um local de passagem de muitos fluxos impossibilitam a existência de mesas exteriores nos três espaços de restauração do Quebra.


À medida que se sobe as escadas, percebe-se outro dos grandes problemas da zona, sublinhado por vários comerciantes. As pichagens e os grafitis, quer em espaços de comércio quer mesmo em monumentos, são um fraco cartão de visita da Alta, alertam. E soluções? A proposta parece já estar pensada: videovigilância na Alta, como acontece em centros históricos de outras cidades, como por exemplo em Leiria, mais vigilância e proficiência policial e mais rapidez na pintura e restauração dos espaços.


Quase no topo das Escadas surgem os sanitários públicos, com manutenção e limpeza da responsabilidade da Câmara Municipal de Coimbra (CMC). Apesar de limpo, é notório que o espaço está degradado e a precisar de manutenção profunda. Mesmo inserido num dos principais roteiros turísticos da cidade, o local parece não responder aos desafios das dinâmicas turísticas locais e constitui um mau cartão de visita para a cidade. Afinal, o Quebra Costas está integrado nos caminhos de Santiago e são diversos os caminhantes a passar por aqui.



A par desta questão das pichagens está outro grande problema. A iluminação noturna, uma das principais queixas referidas pelos comerciantes. Segundo estes, há mais de cinco anos que a própria Sé Velha não está iluminada. Quanto aos candeeiros públicos, estão frequentemente fundidos e, quando são feitas reparações, apenas são substituídas as lâmpadas, não havendo sequer o cuidado de os limpar.


Mesmo no cimo do Quebra, mais um estabelecimento de restauração. Entre uma pausa de pedidos, o empresário e responsável pelo espaço reconhece os vereadores e fala das recentes obras na zona. Apesar de considerar que foi uma intervenção positiva e que veio melhorar o espaço, queixa-se da areia que foi aí deixada, problema que se agrava quando chove.

Apesar da manhã nublada, o calor abrasador de julho já se faz sentir e há que parar. Faz-se uma pausa no percurso, mas não nos desabafos dos comerciantes. À mesa da esplanada de outro Café, encontram-se vários comerciantes com os vereadores. E os temas em cima da mesa surgem um atrás do outro. O ponto em comum é mesmo a falta de iniciativa da CMC na definição de um planeamento estratégico para a Alta.

Por exemplo, o responsável conta os diversos contratempos pelos quais passou até conseguir uma esplanada. Desde 2012 que fez o pedido à autarquia para alargar a esplanada e só em 2020, devido às novas medidas de segurança impostas pela COVID-19, conseguiu obter o aval da autarquia. Ainda assim, depois de submeter novo pedido, tendo em conta as novas contingências da pandemia, teve novamente de esperar dois meses para uma resposta positiva. Curiosamente, a esplanada, tal como a do vizinho e histórico restaurante, são parklets, como o Somos Coimbra tem sugerido que a CMC promova.


Já depois de um café, surge outro tópico na mesa. A questão da recolha do lixo. Segundo os comerciantes, a recolha é feita apenas de manhã, o que faz com que o lixo que se vai acumulado ao longo do dia perdure e seja um mau cartão de visita para a Alta. Coincidência ou não, o facto é que por volta das 11h, quando ainda se discutiam estas questões à mesa, passou uma carrinha da SUMA para recolher o lixo, que ignorou três caixotes encostados aos pilaretes da Sé Velha, mesmo em frente à esplanada em que nos encontrávamos. Além da falta de recolha, fica ainda o alerta para a não existência de caixotes de grande dimensão desde o Arco da Almedina até à Universidade de Coimbra. Segundo os comerciantes, isto contribuiu mais uma vez para uma imagem suja e degradada da Alta, pois os moradores são obrigados a deixar os sacos do lixo à porta, sem um programa organizado e eficiente de recolha do lixo.

Mesmo um olhar desatento à paisagem em redor da Sé Velha percebe o quão desenquadrados ficam os cerca de 20 carros que aí estão estacionados. E, nesse ponto, os comerciantes voltam a estar unidos e a defender um estacionamento pago na Alta, em espaço apropriado e devidamente integrado, de forma a livrar este centro histórico do estacionamento abusivo. Segundo alertam, este é dos únicos centros históricos “com carros à porta”. E rapidamente se apercebem ao olhar para os estacionamentos que, em mais de 20 carros estacionados naquele momento, apenas cinco pertencem moradores.


Os fluxos turísticos e a falta de uma estratégia municipal da CMC para este setor é outro dos temas que surgem em conversa. Os comerciantes defendem a necessidade de integração dos circuitos turísticos da cidade e da região centro, de forma a potenciar o percurso da Alta e reconhecem que para o município o turismo passa apenas uma um conjunto de eventos desarticulados e sem qualquer fio condutor de promoção da zona histórica.


No entanto, os comerciantes tentam, com muito esforço pessoal, contrariar esta tendência. E um exemplo dessa perseverança surge na mesa. Um outro proprietário conta como um evento de Carnaval, localmente organizado, conseguiu juntar centenas de pessoas, mesmo que a CMC não tenha sequer correspondido a pedidos de apoio, o que denota novamente o desprezo pela iniciativa dos comerciantes da Alta.


A hora de almoço já se aproxima e há que continuar o percurso, até para que os próprios comerciantes possam aproveitar e ter as suas casas abertas. A conclusão da conversa balança entre a esperança de mudança e a descrença num futuro melhor. O proprietário de uma tasquinha, um dos mais antigos estabelecimentos da zona abertos, conta: “Há 33 anos que estou no Quebra Costas e nunca vi nada a ser feito para melhor”. Os vereadores do Somos Coimbra comprometeram-se a fazer essa diferença.


Nas traseiras da Sé Velha, mesmo de frente para a famosa Oliveira centenária, encontramos um restaurante italiano que apresenta no menu pizzas feitas de uma farinha totalmente natural, algo inovador e único na cidade. À porta encontra-se o proprietário. Com um português exímio, mas marcado por um forte sotaque italiano, rapidamente conta como estes tempos têm sido difíceis. Com alguma ironia comparando a zona degradada da Alta com algumas ruas de Nápoles, o pizzaiolo dá conta que já há um ano que fez o pedido para uma esplanada à Câmara e a autorização ainda não chegou. Motivado pelos vereadores do Somos Coimbra, conta entusiasmado que vai voltar a fazer o pedido, face às facilidades concedidas no alargamento de esplanadas devido à pandemia de COVID-19.


Continuando a íngreme subida, a sujidade, os edifícios degradados ou as pichagens são uma constante na paisagem, já acompanhada pelos escuros e pouco atrativos gradeamentos que protegem as ruínas do Museu Nacional Machado de Castro.

Junto a um inovador e recente espaço, que junta os serviços de cafetaria e barbearia, encontramos uma resiliente florista, aberta há 31 anos. A proprietária, acompanhado de um belo labrador, que dá pelo nome de Turco, recebe o movimento Somos Coimbra. Rapidamente reconhece as caras e com algum desalento dá conta das várias dificuldades por que tem passado nesta fase. Num ano em que tinha 31 casamentos marcadas, apenas vai manter um único serviço. No entanto, ao mesmo tempo que se mostra desgostosa, evidencia também o gosto que tem pelo comércio local e revela: “sou uma resistente”. Depois de contar um episódio de pedido de estacionamento para a carrinha de transporte de flores, em que a resposta da Câmara foi a sugestão de um estacionamento “do outro lado do rio”, pede: “a CMC tem que ter mais sensibilidade pelo comércio local”. O pedido é feito com a voz embargada e os olhos molhados, mas rapidamente se mostra grata aos vereadores do Somos Coimbra por ouvirem os seus desabafos. E, em jeito de agradecimento, faz questão de oferecer uns pequenos raminhos campestres, a que chama de “miminho”. A loja “de conto de fadas”, como lhe chama, é das mais bonitas da Alta. A janela ornamentada com as mais diversas flores e plantas, já deixa antever o cenário. No entanto, é lá dentro que se revela uma loja de relíquias e obras de arte florais.


Uns metros acima, encontra-se mais um restaurante. À porta do estabelecimento e com uma leitura atenta ao “Diário de Coimbra”, está o proprietário. Rápido se apercebe da presença dos vereadores do Somos Coimbra e prontamente aceita falar no mesmo espaço onde, segundo ele, se sentou Zeca Afonso. O tom crítico que usa para julgar as várias estruturas da cidade, seja a CMC ou a vizinha Universidade, pela qual se mostra desacreditado, é o mesmo que usa para sublinhar o quão desmotivado está com uma qualquer mudança na cidade. Procurámos alimentar-lhe a esperança num futuro melhor.


As fotos mostram como a pintura parcial do muro que ladeia a rua, fronteiro ao Museu Machado de Castro, é feita sem espírito de exigência e qualidade. Não “é pior a emenda que o soneto”, mas o Somos Coimbra exige mais e melhor na velha Alta de Coimbra.


Após subir até às traseiras da Faculdade de Letras, consegue-se perceber novamente a degradação dos espaços devido às pichagens e ao estacionamento abusivo. Já ao descer, nas laterais da antiga Faculdade de Farmácia, o cenário é ainda mais desolador. Os edifícios devolutos e abandonados são mais do que aqueles que estão habitados e em bom estado, o piso continua bastante irregular e cheio de perigosos pormenores, sobretudo para idosos ou pessoas com mobilidade reduzida.

De novo na Sé Velha, o movimento parece ter aumentado ligeiramente. Para além dos transeuntes, surgem escassos turistas de mapas e guias na mão. A nova sinalética, colocada tardiamente no âmbito da classificação de património da UNESCO, parece ser útil para estes turistas. No entanto, como denota um comerciante, a finalização deixa muito a desejar. Na rua do Cabido, a placa colocada recentemente mostra um grande buraco na base.


Novamente no Quebra Costas, são feitas as despedidas. A gratidão do lado dos comerciantes por finalmente encontrarem uma plataforma onde podem ser ouvidos é correspondida com o sentido de compromisso responsável e determinado do Somos Coimbra. As queixas e desabafos foram registados pelos vereadores que, no momento adequado e na instância certa, hão de dar eco a estas vozes desalentadas pelas últimas governações da Câmara, de quem já nada esperam. Coimbra merece uma zona histórica com a qualidade e rigor de manutenção que se encontram noutras cidades portuguesas e estrangeiras, cuidadosa e belamente recuperada.


julho de 2020

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