Ensaio sobre as eleições autárquicas de 2025 em Coimbra
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Obras e Mudança “a mais”, SMTUC e Tempo a menos
INTRODUÇÃO (1/5) – publicado no Diário de Coimbra em 23/11/2025
Na Era Digital, a História já não é escrita pelos vencedores ou por opinadores, é escrita pelos factos, pelos resultados, pelo futuro, basta lembrar a biografia deturpada do rei Ricardo III.
Assumo a responsabilidade pelo resultado eleitoral, recordando a “Asoh defense”.
Todavia, há sempre um somatório de razões, que analisarei brevemente, sem especular sobre o impacto das redes sociais, nem sobre os franco-atiradores intrapartidários ou sobre aqueles que se julgam donos de lugares e correm em pista própria, nem sobre os efeitos da geringonça local, com visões irreconciliáveis (caladas durante a campanha eleitoral...), nem sobre a ilusão demagógica de extrema-direita do partido Chega.
Quando, há 4 anos, Coimbra confiou em nós, retribuímos com trabalho intensivo, diálogo direto, proximidade, inovação, rigor e resultados. Dar mais de 55000 despachos e realizar mais de 5500 reuniões externas (sem contar as reuniões internas), em apenas 4 anos, atesta o elevado ritmo de trabalho do presidente da Câmara, que reuniu com todas as pessoas que o solicitaram (esperemos que a abertura e cadência de trabalho se mantenham...).
Pegámos numa Câmara a funcionar a papel e numa cidade decadente, a perder população e sem receita (um sufoco agravado pelo efeito inflacionário da guerra da Ucrânia...) e iniciámos um ciclo firme de desenvolvimento, como as estatísticas oficiais demonstram. Esta era a nossa principal missão e foi cumprida.
Como prevíamos, a nova dinâmica económica, demográfica, social e cultural de Coimbra está a aumentar rapidamente a receita da Câmara, única forma sólida de ampliar o investimento e resolver os muitos problemas e lacunas de várias décadas. De 2020 para 2024, a receita dos impostos diretos aumentou 10M€, apesar da redução do IMI e da Derrama, e, em 2024, Coimbra foi o município que mais contribuiu para o abate da dívida pública (Anuário Financeiro).
Demonstrámos que a nossa estratégia, prevista para 8 anos, estava a dar resultados consistentes. Queríamos manter o ritmo acelerado de crescimento, corrigir o que ainda era necessário solucionar e levar Coimbra (muito) mais longe. Com contas sólidas, deixamos Coimbra e a receita camarária muito melhores do que aquilo que encontrámos. Todavia, o povo votou pela descontinuidade, mesmo sabendo que ciclos curtos de governação são prejudiciais para as regiões.
Choca-me e sentimos como particular ingratidão a perda de votação para a Câmara em algumas freguesias periféricas, que tanto beneficiaram do trabalho do executivo, em forte contraste com o passado. Refiro apenas dois exemplos. Almalaguês, cuja tecelagem beneficiou de favoráveis condições de exposição e venda e recebeu o prémio europeu Europa Nostra, conseguindo uma visibilidade e impacto nacional e internacional sem paralelo. São Martinho de Árvore e Lamarosa, que recebeu em 4 anos as obras de 8 anos (nada tinha sido feito no mandato anterior), para além de muitas outras benfeitorias em diversas localidades; reitera-se que os contratos interadministrativos para a realização de obras nas freguesias não fazem parte das fontes de financiamento das Juntas de Freguesia (Lei 73/2013) e representam pagamentos da responsabilidade direta da Câmara Municipal.
Finalmente, também é certo que do outro lado eleitoral esteve uma máquina de prometer sonhos a todos, enfatizando que tudo seria realizado num período de 4 anos (impossível de cumprir!), com sucessivos lapsos e inverdades, mas que ganhou as eleições... Atenção, promessas não pagam obras...
OBRAS “A MAIS” (2/5) - publicado no Diário de Coimbra em 29/11/2025
A possibilidade de, com um projeto do Governo e das Águas, renovar as degradadas e insuficientes estruturas subterrâneas de Coimbra, separar águas pluviais e residuais e concretizar um sonho de décadas, com a instalação do primeiro BRT em Coimbra e no país, vulgo MetroBus, representou uma ocasião de ouro para retirar a cidade do atraso de décadas.
Sabendo que não é popular, o nosso lema, sem qualquer hesitação, foi “fazer o que tem de ser feito” e acelerar o mais possível, para o bem futuro de Coimbra. Tivemos consciência dos riscos e que talvez pudéssemos perder as eleições, mas as obras ficariam (quase) feitas!
Não inesperadamente, as obras em curso foram qualificadas por muitos como “caos”, quando representam progresso! Veio ao de cima, e prevaleceu, a mesma mentalidade responsável pelo declínio da cidade.
Curiosamente, enquanto se dizia que as obras não eram da Câmara, eram assacadas ao Presidente da Câmara todas as culpas da enorme complexidade das mesmas, das múltiplas empreitadas em curso (que, por Lei, não podiam sobrepor-se), da escassez de mão de obra, dos achados arqueológicos, da falta de cadastro das estruturas subterrâneas e da ausência de projetos de ligação funcional e urbanística entre o canal do MetroBus e o meio urbano (que já fomos nós a trabalhar). Por exemplo, a Praça 25 de Abril foi toda repensada e redesenhada pelo nosso executivo devido aos erros graves do projeto herdado.
De repente, Coimbra tornou-se uma cidade de engenheiros (e todos fariam muito melhor...), enquanto a oposição defendia populisticamente uma recalendarização das obras; se o tivéssemos feito, ainda hoje o MetroBus não estaria a circular!
A verdade é que conseguimos aquilo em que já poucos acreditavam, o MetroBus a transportar passageiros em Coimbra, e encomendámos atempadamente o estudo técnico, extremamente complicado e muito sensível, de coordenação da mobilidade entre o MetroBus e os SMTUC.
Fala-se menos das obras subterrâneas, aquelas que nenhum autarca gosta de fazer, pois incomodam e não ficam à vista (...), mas são tão importantes como as de superfície e previnem catástrofes, ruturas, perdas e inundações. Coimbra fica com um subsolo novo e moderno, mas o cidadão médio não valorizou.
Não há progresso e modernização sem obras e não há obras desta dimensão sem causar perturbações. Talvez tenhamos perdido também por “obras a mais” na cidade, um injusto paradoxo. Todavia, para o desenvolvimento de Coimbra e para a qualidade de vida futura dos nossos munícipes, valeu a pena.
Mesmo no meio de todas as dificuldades, fizemos muitas mais obras, na requalificação de 17 escolas (incluindo as grandes obras da Eugénio de Castro, Eiras e Conchada), investimos mais de 3,5 milhões de euros na reabilitação e estabilização de obras de arte, muros e taludes, adiadas durante décadas (porque não dão votos...), investiram-se 24 milhões de euros em 66 obras de infraestruturas, efetuadas pelas Águas de Coimbra e pela Câmara (considerando a drenagem de águas pluviais), etc..
Contudo, não colocámos betuminoso, vulgo alcatrão, por causa dos atrasos e da burocracia do Tribunal de Contas (gostei de ver Fernando Medina a criticar acidamente o TC), mas deixamos para o atual executivo 3,2 milhões de reabilitação de vias, prontos para entrarem em obra!...
Claro que as obras prejudicaram a mobilidade e os transportes públicos na cidade, mas era transitoriamente inevitável!
Infelizmente, muitas pessoas preferem crer e votar em ilusões, promissões e fabulações...
SMTUC A MENOS (3/5) - publicado no Diário de Coimbra em 9/12/2025
Herdámos os SMTUC num estado deplorável, em instalações ultrapassadas, sem plano estratégico nem renovação da degradada frota e com a maior redução de sempre dos horários feita em Agosto de 2021, a prova das colossais lacunas deste serviço.
Como os Serviços Municipalizados são um modo disfuncional de organização e gestão, que tem vindo a ser abandonado, procurámos internalizar os SMTUC na organização direta da CMC, para melhorar a sua gestão, mas o processo foi rejeitado na Assembleia Municipal por razões políticas, com prejuízo da gestão do Serviço.
No que concerne a vetusta frota dos SMTUC, realizámos o maior investimento de sempre na sua renovação. Vêm a caminho mais 30 novos autocarros elétricos, 14 de 12 metros e 16 de 9,5 metros, que permitirão abater outros tantos autocarros que há muito ultrapassaram o seu tempo de vida útil, resolvendo de uma vez por todas o problema das falhas dos horários por avarias de autocarros, e foi dada ordem para aquisição de mais 15 autocarros novos a combustão. Em apenas 4 anos, as decisões que já tomámos resolviam os problemas da frota dos SMTUC, mas não nos foi dado tempo...
Porém, o maior problema é a falta de motoristas. O executivo, exatamente como se comprometeu e sem demagogias, empenhou-se em trabalhar e fazer progredir as três soluções possíveis: atribuição de um suplemento, reposição da carreira de agente único e criação de uma empresa totalmente municipal, que teria a vantagem de permitir valorizar todos os trabalhadores dos SMTUC. Não prometemos que resolvíamos tudo em 4 anos!
Apoiámos junto do Governo da AD a reposição da carreira de agente único, um objetivo sempre recusado pelos governos socialistas.
Apresentámos o estudo para o processo de empresarialização, elaborado por uma empresa consultora, que pode agora seguir o seu exigente e imprevisível caminho.
Fundamentámos junto do Governo da AD, técnica e juridicamente, a atribuição de um suplemento específico aos motoristas dos SMTUC, no valor de 15% do vencimento, enquanto se trabalhavam as outras duas soluções, na medida em que é parecer unânime que não se pode aplicar o subsídio de penosidade e insalubridade. O Governo não chegou a legislar este suplemento, pois há muitas negociações em curso, não obstante termos avisado enfaticamente que tal nos podia custar as eleições autárquicas em Coimbra...
Em campanha, a atual presidente afirmou que a Câmara não pagava o suplemento aos motoristas porque não queria! Que comece a pagá-lo já em 2026...
As repetidas greves, a mobilização de motoristas para as listas do partido ADN, colocando em causa um serviço público essencial durante a campanha eleitoral (um abuso da democracia!), obrigando a horários de férias em época de trabalho, a realização de mais um plenário na semana das eleições e de uma greve na antevéspera das mesmas, afetaram gravemente dezenas de milhares de pessoas, que foram votar irritadas (e com razão!), virando-se contra o ‘eterno culpado’, o presidente da Câmara, não obstante este ter feito tudo o que estava ao seu alcance durante o curto espaço de tempo de um mandato, como nunca antes tinha sido feito.
Porque as suas ações foram fortemente prejudiciais para todos os utentes dos SMTUC, quem maioritariamente determinou o resultado das eleições foram os motoristas dos SMTUC, mas mudaram para pior... veremos o que vão fazer a partir de agora, sobretudo com a atual maioria a querer entregar a gestão dos SMTUC à CIM-RC, deixando Coimbra de regular os seus transportes públicos...
MUDANÇA “A MAIS” (4/5) - publicado no Diário de Coimbra em 22/12/2025
As pessoas tinham consciência do declínio de Coimbra e até queriam mudança. Mas queriam que decorresse sem incómodo e que tudo se resolvesse milagrosa e rapidamente. Queriam o impossível e reagiram mal...
Recebi uma mensagem, no dia a seguir às eleições, eloquente por si mesma: “Esta semana, numa formação, o formador dizia que se fala muito em mudança, mas os números dizem que quando um autarca muda muito a atuação da autarquia, geralmente perde as eleições”...
A introdução do MetroBus em Coimbra, a maior e mais complexa revolução dos transportes na cidade (e arredores), vai melhorar fabulosamente a futura mobilidade e a qualidade de vida na cidade, mas muitas pessoas não conseguem antever o futuro e receiam a mudança para o “desconhecido”.
O Plano de Pormenor para a zona ribeirinha e futura estação central intermodal, coordenado pelo arquiteto Joan Busquets, representa uma solução ambiciosa e radical que vai permitir a Coimbra passar a dispor de uma efetiva estação intermodal e potenciar o desenvolvimento territorial, social, económico e ambiental da zona norte e poente da cidade, devidamente articulada com a Baixa e a cidade consolidada, tendo por base as mais recentes políticas e boas práticas internacionais no sector dos transportes e do ambiente. Porém, quantas pessoas terão ido consultar a maquete, que esteve em exposição na estação de Coimbra A?...
A Unidade de Execução da Solum e a Unidade de Execução 7 Fontes são duas formas de harmonizar o urbanismo, juntando vários privados no mesmo projeto, assim como a Consolidação da Frente Urbana da Rua Castro Matoso, mas os resultados ultrapassam o limite de 4 anos. Estava em curso o estudo da Unidade de Execução da Arregaça.
Coimbra era uma cidade parada no tempo, sem grandes eventos, desorganizada, sem estratégias de mobilidade, sem perfume urbanístico, sem arquitetura contemporânea e com um PDM castrador do crescimento sustentável e com qualidade. A primeira revisão do PDM foi uma oportunidade perdida para Coimbra, pelos exagerados limites impostos, e, por exemplo, a razão pela qual o espaço da antiga fábrica de curtumes, na Casa do Sal, ainda não foi devolvido à cidade, ou porque hoje estão a ser construídos prédios na Solum com apenas sete andares, um completo absurdo que diminui e encarece a habitação! Por isso iniciámos de imediato a segunda revisão do PDM, um processo que demora vários anos e está em curso. Neste âmbito, foi dada uma nova vida ao Departamento de Planeamento, que estava quase esquecido.
Estratégias de densificação urbana reduzem a expansão urbana descontrolada, promovendo um uso mais eficiente do solo e reduzindo a necessidade de novas infraestruturas. A nível económico e social, um bom planeamento pode atrair investimentos, promover o turismo e estimular o desenvolvimento local e a criação de emprego, bem como assegurar a coesão social e a igualdade de acesso a serviços e oportunidades, através da provisão adequada de habitação, educação, saúde, e espaços públicos.
Na verdade, remando contra ‘o sistema’, mudámos mentalidades e práticas, em todos os setores, mas os resultados demoram a aparecer, sobretudo quando não é possível colocar uma chuva de euros em cima dos milhares de problemas do concelho. Outros vão agora colher os louros.
Talvez devêssemos ter contratado uma empresa de comunicação e comprado simpatias, mas não o fizemos, por uma questão de filosofia. Acreditei que o trabalho prevaleceria, apesar dos parcos recursos disponíveis. Enganei-me, não houve tempo.
TEMPO A MENOS (5/5) - publicado no Diário de Coimbra em 2/01/2026
Portugal deveria implementar um sistema igual ao italiano, com mandatos autárquicos de 5 anos (quiçá 6 anos) e o máximo de 2 mandatos, por ser mais adequado ao desenvolvimento e dar mais tempo para avaliar os resultados das estratégias de governação local.
Quatro anos é pouco tempo, particularmente quando a linha de partida é muito negativa, como acontecia em Coimbra...
No início do mandato começámos por conhecer a casa, reorganizar e dinamizar a Câmara, que era disfuncional, inoperante e não tinha capacidade de investimento.
Hoje, a Câmara é uma das mais transparentes do país (índice DYNTRA), é uma família, quase todos são profundamente empenhados, trabalha-se em equipa e em diálogo e coopera-se com as instituições do concelho. Coimbra tornou-se realmente um polo de cultura e desenvolvimento e está mais proativa, cosmopolita, mais célere no urbanismo e em todos os setores, aberta às pessoas e ao mundo, mais digital, à distância de um “clique” ou da marcação de uma reunião, e com muito mais receita!
Com reformas profundas e novas dinâmicas em todos os setores, planeamento a longo prazo, realização da Coimbra Invest Summit, ampliação do iParque, instalação do BRT/MetroBus, duplicação do investimento nas Freguesias e triplicação na Cultura e Turismo, nova construção e reabilitação de 500 habitações camarárias, duplicação anual da área licenciada para construção (em 2024, o valor foi de 260392 m²!), reabilitação de Escolas, o maravilhoso projeto TUMO, a Casa do Cinema, a plantação de mais de 4000 árvores e a criação do novo espaço verde dos Loios, poupança de 12M€ com as novas luminárias LED, grandes eventos e concertos internacionais, investimentos na Baixa (incluindo videovigilância e um quarteirão de residências de estudantes com sala de estudo 24h), a aquisição das casas quinhentistas da Baixa e do Sousa Bastos, a passagem para domínio da Câmara de 15ha de margens do Mondego, a criação da AGIT e muitos projetos em curso (Palácio da Justiça, José Falcão, alta velocidade em Coimbra B e nova estação central intermodal, ciclovias, renovação da frota dos SMTUC, nova ponte e outros), etc., etc., Coimbra recuperou energia, cresceu, afirmou-se, atraiu empresas, nacionais e multinacionais, como a Airbus, a Constellation e outras, ganhou a Manifesta 2028, recuperou população total e jovem (desde 2022-23 criámos mais 10 salas de educação pré-escolar e mais 27 salas do 1º ciclo) e melhorou imenso a sua imagem.
A definição de prioridades, com poucos recursos, implicou que em alguns sectores o investimento fosse insuficiente para as necessidades de uma população em crescimento, como na limpeza urbana, um pelouro que correu menos bem, mas em recuperação. Lá iríamos no próximo mandato.
Segundo o instituto “Mais Liberdade” e com base em 11 itens, Coimbra está hoje no 4.º lugar do “Ranking de Competitividade Municipal 2025”, atrás de Lisboa, Oeiras e Porto, e à frente de Aveiro, Cascais, Maia, Alcochete e Funchal.
Era impossível fazer mais e melhor em apenas 4 anos, que é muito pouco tempo. Nos próximos anos muitas obras e projetos acontecerão como resultado do nosso trabalho.
A nova presidente da Câmara de Condeixa apresentou um plano a 10 anos para o concelho, e muito bem. Que tenha êxito! Obviamente, é preciso TEMPO para se planear e concretizar projetos transformadores do futuro, mas nem todos o conseguem entender...
O nosso desejo final é que Coimbra continue a acelerar o seu ritmo de desenvolvimento e se confirme como o concelho mais dinâmico do país.
José Manuel Silva






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