Posição do Somos Coimbra sobre a Reintrodução do Sistema Ecovia


Fotografia "Notícias de Coimbra"

Intervenção dos vereadores do Somos Coimbra sobre o Sistema de Deslocações em Transporte Público com Estacionamento – Reintrodução do Sistema Ecovia, apresentado na Reunião de Câmara de 22 de fevereiro


Na reunião de 9/11/2020, o Somos Coimbra deu um voto de confiança a esta Câmara, votando a favor da reposição do sistema multi e intermodal de transportes, designado de ECOVIA, acompanhado de um conjunto de críticas construtivas de forma a mitigar algumas das fragilidades identificadas.


Uma das críticas incidiu sobre a sinuosidade e extensão exagerada das linhas propostas. Por isso, é com agrado que identificamos que a proposta do Somos Coimbra foi tida em consideração, apresentando-se no âmbito deste processo um upgrade positivo na redefinição das linhas de apoio ao serviço, com trajetos muito mais curtos, diretos, legíveis e, por inerência, algo concorrenciais ao veículo automóvel. Assinalamos ainda com particular agrado algumas opções, considerações e estimativas incorporadas neste processo, que procuram responder às preocupações pertinentes enumeradas pelo Somos Coimbra.


Apesar disso, dada a desadequação da localização dos parques de apoio e a falta de uma sustentação técnica das opções, deixa-nos antever que este projeto irá reincidir nos erros do passado. Não basta lançar um novo serviço! É preciso explicá-lo e envolver os munícipes e através de um conjunto de ações integradas, fazê-los perceber que a política de transportes em Coimbra está a mudar no sentido de a tornar mais eficiente, acessível e ambientalmente sustentável. Aliás, as condicionantes impostas ao uso do parque verde, são o indício claro da forma atabalhoada como este serviço foi pensado, sem serem ponderadas previamente as funções a atribuir a este parque. Por isso, levantamos um conjunto de dúvidas e sugestões que aqui deixamos para reflexão:


1. Os parques da Guarda Inglesa e do Choupal são remetidos para uma 2ª fase de investimentos, por carecerem de obras de construção civil. Deve esta Câmara aproveitar este interregno de tempo para estudar localizações alternativas ao parque da Guarda Inglesa, transferindo-o para os terrenos junto ao Almegue, libertando os espaços nobres da Guarda Inglesa para a sua necessária requalificação urbanística, paisagística e de aproximação ao Rio Mondego.


2. Abrem desde já os 4 parques semi-centrais à cidade. Vão-se assim consolidar práticas e hábitos de mobilidade na procura de parques centrais à cidade, dificultando o processo de transferência posterior dessas práticas para os parques periféricos. Importa desde já, que as viagens com origem na N111, N1-Norte e IC2-Norte, sejam naturalmente canalizados para um parque próximo da Estação Velha, contribuindo assim para o descongestionamento do tormentoso nó da Casa do Sal. Para isso, deve ser priorizada a construção do anel à Pedrulha. Por sua vez, o tráfego vindo da zona sul (IC2) com destino à UC ou HUC, deveria ser canalizado para o parque das Lajes, libertando o centro urbano de viagens desnecessárias.


3. A “linha vermelha”, ao contrário da proposta na reunião de 9/11, deixou de servir a Estação B. O Somos Coimbra considera que, tal como previsto no plano Busquets, importa estudar e construir um parque periférico de grande capacidade junto à Estação Velha, numa clara aposta na intermodalidade, e como ponto de receção do tráfego com origem na zona norte da cidade. Não deixa ainda de ser curioso que, se esta linha deixa de servir a estação B, então o que justifica que o seu circuito seja estendido até à rotunda da Estação Velha e não faça inversão de marcha direta logo na rotunda da Casa do sal? Por outro lado, não faz qualquer sentido que o seu trajeto se materialize através da estrada de Coselhas ou invés da circular externa, sujeitando os clientes ECOVIA ao desconforto das lombas e ao desventrar de um espaço eminentemente residencial que importa defender do tráfego de atravessamento.


4. No que concerne à “Linha amarela”, propõe-se a criação de uma paragem adicional na Avª Fernão de Magalhães. Afinal é aí que se concentram os serviços e comércio e, por inerência, a procura de transportes, a qual não é servida nem pela paragem da R. João Machado nem pela casa do sal.


5. O tarifário, apesar de atrativo, releva-se inadequado a locais centrais. Assim é expectável que muitas pessoas que atualmente adquirem o seu passe mensal dos SMTUC, por 30 euros, façam upgrade para este serviço, já que o acréscimo de 5 euros, lhes permite ter acesso a todos os parques ECOVIA, a uma rede de miniautocarros de luxo, para além de manterem o acesso à rede normal dos SMTUC. O custo diário do serviço é pouco superior a uma hora de parquímetro em via pública, sendo mesmo inferior ao custo da hora de estacionamento em parque subterrâneo. Esta lógica de preços faria todo o sentido, caso os parques fossem, como defendeu o Somos Coimbra, localizados em zonas periféricas. Assim e dada a desadequação da localização de alguns parques, poderemos estar a incentivar, mesmo aqueles utilizadores que já usavam os TP, a voltar ao veículo automóvel, contribuindo para o aumento do congestionamento urbano.


6. Atendendo a que alguns parques se localizam na proximidade de paragens do sistema de MetroBus, importa ainda salvaguardar que o bilhete dará acesso partilhado a este novo serviço, assim que o mesmo entrar ao serviço.


7. O acesso aos bilhetes, continua a ser presencial? Está-se a criar um novo serviço assente numa base tarifária vetusta do século passado. É imperioso e urgente dar-se o salto tecnológico quer na bilhética quer na informação, dando acesso fácil ao cliente ao pagamento do serviço, mas também informação, em tempo real, sobre o número de vagas livres existentes em cada parque.


8. A CMC deve aproveitar a oportunidade para corrigir o raio e ângulo de entrada da rotunda da Avª Mendes Silva com a R. Dom Pedro de Cristo, cuja dificuldade de entrada se traduz diariamente na geração de filas longas, designadamente nos períodos de saída dos equipamentos escolares aí localizados.


9. Não é compreensível o racional que justifica a proposta dos acessos ao parque Heróis do Ultramar. Não deveria a entrada ser através da R. D. João III e a saída pela R. D. Manuel I? Para além da proposta ser antinatural, está-se a aumentar o volume de tráfego no trecho frontal às escolas D. Maria e Avelar Brotero, com penalizações para a segurança, ruido e qualidade do ar desses espaços. Como serão assegurados os acessos pedonais ao parque de estacionamento? Esses acessos pedonais foram devidamente coordenados com a paragem do sistema ECOVIA?


10. Segundo o quadro 2 da informação dos SMTUC, a operacionalização do serviço, para garantir a frequência de 7 minutos, carece da disponibilização de 16 viaturas em período de ponta. Atendendo a que apenas foram recentemente adquiridos 9 mini-autocarros elétricos e que a frota dos SMTUC apenas dispõe de mais 4, onde vamos buscar os restantes 3? Este planeamento é agravado se considerarmos que os tempos de percurso dependem dos níveis de congestionamento e que, face às inclinações acentuadas de muitas ruas, cada um dos mini-autocarros terá de fazer recarga de baterias entre 1,5 a 2h. Não basta apregoar que o sistema garante a fiabilidade é preciso assegurá-la. Para isso, em períodos de maior procura é preciso dispor de frota complementar para injetar no sistema, sempre que se revelar necessário assegurar os horários e frequência. Que serviços vão ser eliminados para ultrapassar estas carências da ECOVIA? A mesma análise deve ser feita em relação aos recursos humanos, já que só este serviço deverá requerer a afetação de 32 motoristas e de 8 funcionários para os parques.


11. Continuam a não ser previstas medidas de apoio ao transporte público, como a definição de uma rede de corredores BUS, restrições de circulação em alguma vias, ou medidas de prioridade em cruzamentos, que garantam que, mesmo em hora de ponta, os tempos de trajeto são garantidos e por inerência a fiabilidade e a confiança é assegurada.


12. Mas absolutamente fundamental ao sucesso do sistema estará seguramente a vontade política e a capacidade deste executivo para adotar uma estratégia paralela de controlo dos acessos e de gestão do estacionamento nas áreas sujeitas a maior pressão da procura. Sem controlo e atuação sobre o estacionamento voltaremos seguramente a oferecer um sistema economicamente insustentável e que em nada contribuirá para a alteração dos padrões de mobilidade em Coimbra, mostrando a incapacidade desta câmara para aprender com os erros do passado. Apesar desta certeza, nada é referido em relação a esta matéria.


13. Todas estas dúvidas levam-nos a perguntar: quanto custará este serviço ao erário público? É absolutamente essencial e urgente promover uma análise económica que permita identificar o break-even point do projeto, tendo por base na procura mínima que garante a viabilidade e autossustentabilidade económica do projeto. Não basta admitir que a ocupação média dos veículos será de 20%. Continuamos a decidir projetos que assumem custos consideráveis (meios físicos e humanos), com análises desenvolvidas em cima do joelho, com base em meras sensibilidades pessoais e de forma totalmente amadora. Para além do investimento inicial (entre outros, 40 mil euros no Alma Shopping), há uma renda mensal a pagar ao Alma Shopping (725 euros), pelo que a decisão deverá estar necessariamente dependente do nível de atratividade previsível e do custo que lhe está associado. Depois não basta lamentar ou imputar responsabilidades aqueles que se vêm forçados a encerrá-los. É preciso estudar e garantir a viabilidade do sistema.


O Somos Coimbra defende, de forma acérrima, a oferta de novos serviços de mobilidade. Mas, é preciso integrar medidas para que no seu conjunto surtam o efeito desejável. Este processo, nos termos propostos, gera-nos mais dúvidas do que certezas. Lamentavelmente, nesta autarquia, continuamos a criar serviços de forma casuística, sem ter por base qualquer estudo técnico que fundamente as opções e decisões, pelo que nos iremos abster nesta votação.


Somos Coimbra

22 de fevereiro de 2021