Epidemia Silenciosa

A subida da mortalidade nas doenças não COVID está a ser maior do que a mortalidade devida à COVID



Se usarmos a média dos primeiros 7 dias de março (aproximadamente 300 óbitos) como valor de referência para o resto do mês (corresponde a um declive de zero), então o número total de óbitos esperados até ao dia 27 seria de 8100 (300 mortes por dia durante 27 dias). Neste momento temos um total de 8700 óbitos, o que corresponde a aproximadamente 600 mortes acima dessa expectativa, ou cerca de 7% de excesso de mortalidade.Este aumento não é explicado pela COVID-19.


O Somos Coimbra vê com muita preocupação a falência do SNS (e do setor privado) para a continuidade do acompanhamento e tratamento dos doentes não COVID-19, por falta de preparação prévia atempada e adequada, mas também por força da pandemia e do Estado de Emergência.


Porque conhecemos muito bem o SNS por dentro, podemos afirmar que é um facto que os doentes não COVID-19 estão a sofrer sérios atrasos no diagnóstico e tratamento de patologias graves e até na marcação de segundos tempos cirúrgicos, o que tem e terá inevitáveis efeitos na subida da mortalidade entre estes doentes.


Por outro lado, a gravíssima crise social que se está a instalar vai incrementar exponencialmente os chamados ‘determinantes sociais da saúde’, que são causa de aumento acentuado da morbilidade e mortalidade entre as pessoas que sofrem os seus efeitos.


Adicionalmente, o medo instalado e a falta de confiança na segurança em recorrer às instituições de saúde está a afastar doentes com patologias agudas graves dos serviços de urgência, como acidentes vasculares cardíacos e cerebrais, falecendo muito provavelmente em casa sem a terapêutica que podia salvar as suas vidas. Os hospitais portugueses registaram nas urgências uma descida no número de utentes na ordem dos 60%, que não é explicada pela redução dos verdes e azuis, que mantém a mesma percentagem anterior. Deveria ser feita uma campanha para que os doentes com sinais de alarme de doença aguda grave não deixassem de recorrer aos serviços de urgência perante os respectivos sinais de alarme.


Preocupa-nos que, na dimensão do possível, esta "epidemia silenciosa" não esteja a ser devidamente analisada, debatida e resolvida, para minimizar ao máximo os seus efeitos negativos. É que também morrem pessoas.


Sem colocar em causa a terapêutica instituída para lutar contra a pandemia que nos assola, não podemos correr o risco de morrerem mais pessoas com a cura e o medo do que com a doença. O que nos dirão as estatísticas finais? Sabemos que não é fácil, mas também sabemos, e isso é absolutamente essencial, que é necessário muito mais investimento na globalidade do SNS do que aquele que está a ser feito.


A consciência deste problema e a sua discussão transparente, com seriedade e sem alarmismos, também são fundamentais nos dias de hoje.

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