Coimbra quer mesmo ser Capital Europeia da Cultura em 2027?


Posicionamento dos vereadores do Somos Coimbra sobre o Relatório do segundo ano de atividade do Grupo de Trabalho da Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027, apresentado na Reunião de Câmara de 23 de novembro de 2020

Quero começar por reconhecer a importância de, à semelhança do primeiro, este relatório do segundo ano de atividades do Grupo de Trabalho da Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura (CEC) 2027 ser presente a esta Câmara, para nossa contribuição analítica.


Saudamos o esforço que tem sido protagonizado pelo Grupo de Trabalho, porém manifestamos alguma preocupação com as conclusões do relatório, que nada dizem sobre o projeto, agora que estamos a um ano da apresentação da candidatura. Desejamos que tenham muitos projetos, ideias e programas em elaboração, mas a verdade é que este relatório quase nada nos diz sobre a sua eventual existência, para além de protestos genéricos de excelentes intenções e de algumas atividades desenvolvidas.


Da leitura do que consta nas 22 páginas do relatório, verifica-se que pouco ainda foi feito em concreto, não obstante a motivante reflexão inacabada sobre a reavaliação do conceito de cultura face aos constrangimentos da pandemia e a constatação da óbvia necessidade de implementação de estratégias com “grande ambição e visão estratégica”, mas que, concretamente, não sabemos quais são.


Apontam-se como entraves “a ausência de informações claras e precisas por parte da tutela”, destacando-se a acusação à proatividade de Évora na procura dessas necessárias informações e apoios junto da direção regional da cultura do Alentejo, considerada pelo Grupo de Trabalho como um enviesamento potencial por beneficiar de apoio direto da tutela. A única coisa que podemos comentar é que Évora está a fazer o seu trabalho de casa.


Ficamos sem perceber se Coimbra quer mesmo ser Capital Europeia da Cultura em 2027 ou se quer ser parte de uma plataforma de entendimento e troca de opiniões entre cidades candidatas, sem se empenhar de unhas e dentes nos caminhos que possam levar à vitória no concurso. Na nossa modesta opinião, por muito estímulo intelectual que possam representar, não se ganham concursos com plataformas de entendimentos entre os concorrentes. Talvez sejam necessárias outras estratégias, pensamos nós...


Houve dois momentos de encontro com a Ministra da Cultura: um jantar em 24 de janeiro de 2020 no Algarve, e uma reunião no dia 19 de fevereiro de 2020 no Ministério da Cultura onde se terá apresentado a lista de pontos a esclarecer, tendo ficado afinal tudo por esclarecer.


É por causa da questão do “financiamento não ter ficado clarificado” e da falta de resposta sobre “o envelope financeiro a atribuir à cidade vencedora” que Coimbra não vai diligenciar no sentido de apresentar a concurso uma proposta de enorme qualidade e visão de futuro, arrasadora e vencedora? Podem tomar como referência o orçamento de Guimarães CEC 2012, com 111 milhões de euros. Também nada ficamos a saber sobre eventuais candidaturas a Fundos Europeus e à procura de contribuições privadas, o que nos preocupa.


Ainda mais preocupante é o facto do orçamento da CMC para 2021 não refletir minimamente a importância desta candidatura. Desde 2018 que andamos a chamar a atenção para esta grave lacuna, infelizmente sem eco.


Confiamos que Coimbra não fique passivamente à espera do fim da pandemia, que, felizmente, até se aproxima rapidamente, nem de respostas objetivas e temporizadas da tutela. Certamente está a CMC e o Grupo de Trabalho na boa senda de nos adaptarmos aos novos desafios lançados pela COVID, pelos novos conceitos de cultura e pelas emergentes dificuldades orçamentais. Basta ler o relatório de Guimarães para percebermos imediatamente que é preciso navegar com destemor nas tumultuosas águas dos financiamentos.


Pelo relatório e pelas notícias que vieram a público, ficamos preocupados com a ausência de conhecimento e pelas dificuldades de procura de participação dos cidadãos, indicador mencionado no relatório como um dos valorizados na candidatura. “A capacidade de fomentar a participação e o envolvimento ativo dos cidadãos e de contribuir para o desenvolvimento das cidades e regiões através da valorização das políticas e ações culturais constitui um dos fatores de seleção das cidades candidatas pela Comissão Europeia”. Porém, não é referida, ainda, nenhuma estratégia para abordar esta questão e resolver estas dificuldades, o que nos preocupa.


Na pág. 18 faz-se menção à Saison Croisée France-Portugal, que terá sido adiada. Fora o referido desejo de participar, com o qual concordamos, na verdade esta é uma atividade organizada pelo Estado Português.


Mencionam-se várias reuniões interessantes, todas elas importantes e necessárias, mas fica a forte sensação de que já deviam ter sido realizadas durante o primeiro ano. No segundo ano de atividade do Grupo de Trabalho, o patamar de realização já deveria ser bem mais elevado.


Neste relatório fazem-se interessantes menções a grandes propósitos e a análises holísticas, a “política cultural estrategicamente definida”, a “plataformas de reflexão”, à “dimensão da multiculturalidade que caracteriza Coimbra”, aos vários webinares realizados, mas sem descrição e aprofundamento dos seus resultados e análises críticas e substantivas, o que reduz este relatório a um documento essencialmente administrativo. Desejamos que se estejam a reservar discretamente os grandes projetos e as ideias nucleares para a apresentação da candidatura.


Achámos interessante que Coimbra tenha participado online no seminário “European Capital of Culture in Latvia 2027”, uma boa aprendizagem, mas não podemos aceitar a falta de cultura de quem pensa que Latvia é a Lituânia. Sinceramente temos dificuldade em aceitar tal erro grosseiro de incultura, de quem confunde a Letónia com a Lituânia. É como confundir Portugal com Espanha...


Mais à frente, o relatório menciona a surpreendente candidatura de Coimbra a Cidade Europeia da Inovação, com a peritagem da empresa Magellan. A candidatura não foi bem sucedida. Quais foram os resultados da avaliação? Podem ser conhecidos? É que, conhecendo-se as avaliações, podem melhorar-se as próximas candidaturas. O que foi referido na apreciação desta candidatura? Onde estão os anexos para se poder consultar e avaliar o trabalho que se menciona estar a ser feito com a empresa Magellan (p. 394)? Sinceramente, é espantoso e surpreendente que uma Câmara que parou no século XX se tenha candidatado a Cidade Europeia da Inovação no século XXI. Obviamente, o resultado só podia ser o insucesso. Pobre Coimbra...


Neste duplo âmbito, queremos propor que Coimbra apresente a sua candidatura a Cidade Criativa da Unesco. A Rede de Cidades Criativas da UNESCO foi criada em 2004 para promover a cooperação com e entre cidades que identificaram a criatividade como um fator estratégico para o desenvolvimento urbano sustentável. As 246 cidades que atualmente fazem parte desta rede trabalham juntas para um objetivo comum: colocar a criatividade e as indústrias culturais no centro de seus planos de desenvolvimento a nível local e de cooperação ativa a nível internacional.


Portugal já tem sete cidades nesta rede, duas delas competidoras de Coimbra na candidatura a Capital Europeia da Cultura 2027. A saber: Idanha-a-Nova, Cidade Criativa da Música (2015), Óbidos, Cidade Criativa da Literatura (2015), Amarante, Cidade Criativa da Música (2017), Barcelos, Cidade Criativa do Artesanato e das Artes Populares (2017), Braga, Cidade Criativa das Artes Digitais (2017), Caldas da Rainha, Cidade Criativa do Artesanato e Artes Populares (2019), Leiria, Cidade Criativa da Música(2019).


Ao aderir à rede, as cidades comprometem-se a compartilhar as suas melhores práticas e a desenvolver parcerias envolvendo os sectores público e privado e a sociedade civil em sete distintos campos de criatividade: artesanato e cultura popular, cinema, artes, design, gastronomia, literatura e música. Esta rede e as competentes iniciativas podem contribuir para alavancar a candidatura de Coimbra a CEC 2027. Certamente Braga e Leiria irão potencializar a sua participação nesta rede.


Quantos aos eventos não realizados referidos no presente relatório, sugerimos que o FOR1C e o REMIX sejam organizados online, no máximo da extensão possível.


Finalmente, as nossas preocupações agudizam-se no ponto 19, e último, do relatório, referente aos compromissos anunciados em 2019 e ainda não resolvidos por razões que são alheias ao Grupo de Trabalho, ficando subjacente que são da responsabilidade desta Câmara. São três e todos eles absolutamente essenciais e de transcendente importância: I. Criação de um modelo de financiamento e gestão que garanta ao Grupo de Trabalho mais autonomia e capacitação financeira; II. Constituição de novas parcerias e reforço da internacionalização; III. Envolvimento da CIM.


Obviamente, sem a resolução imediata, que já é tardia, destas questões, a probabilidade de Coimbra vir a ser Capital Europeia da Cultura 2027 irá diminuindo a cada dia que passa, não obstante o enorme esforço e dedicação do Grupo de Trabalho, que não questionamos e que apoiamos.


Queremos muito que Coimbra vença, estamos disponíveis para colaborar e já apresentámos sugestões, mas este relatório evidencia que é necessário acelerar e melhorar a quantidade e a qualidade do trabalho desenvolvido, sob pena do objetivo não ser atingido, o que seria extraordinariamente penalizador para Coimbra.


Veja o Relatório do primeiro ano de atividade do Grupo de Trabalho da Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027 aqui.


Veja o Relatório do segundo ano de atividade do Grupo de Trabalho da Candidatura de Coimbra a Capital Europeia da Cultura 2027 aqui.

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