O futuro da Saúde em Coimbra. É urgente uma reflexão e uma estratégia.

(Texto de José Manuel Silva, publicado na Revista “Saúde” do Campeão das Províncias, de Julho/2019)


É habitual dizer-se que Coimbra deve apostar na diferenciação em cinco clusters: saúde, educação, cultura, inovação e turismo, sem esquecer outros igualmente importantes e complementares. Porém, subsiste a ausência de planos estratégicos para cada uma destas áreas.

Cada instituição ou sector económico vai fazendo o que está ao seu alcance, mas falta o catalisador da conjugação de esforços e estratégias, que, por excelência, deveria ser a Câmara Municipal de Coimbra (CMC), que se limita a fazer obras de manutenção, organizar festas e distribuir cheques, o que é muito pouco.

A ausência de liderança, de diálogo interinstitucional e de funcionamento rápido e transparente da CMC tem sido o maior factor de estagnação e perda do concelho de Coimbra, desaproveitando o seu enorme potencial.

Hoje o concelho de Coimbra tem apenas 133 mil residentes, sempre em perda desde 2001, enquanto outros crescem, pelo que já caiu para o 19º concelho do país, quase a ser ultrapassada por Famalicão. Coimbra perdeu 54% dos jovens residentes dos 25 aos 29 anos, por falta de emprego e perspectivas de futuro, tornando-se num concelho envelhecido, com indicadores económicos que demonstram a progressiva perda de relevância do concelho. Coimbra está hoje num obscuro 60º lugar, com apenas 182 milhões de euros em valor dos bens exportados pelas empresas em 2018 (PORDATA).

A evolução de Coimbra no sector da Saúde (não considerando a importante componente da educação) pode ser analisada de várias formas. Na vertente pública assistencial, está em acelerado declínio, no sector privado assistencial, está em franco crescimento, no sector farmacêutico, apresenta alguns êxitos, como os da Bluepharma e da Luzitin, mas enfrentado enorme entraves burocráticos colocados pela Câmara de Coimbra. Do ponto de vista da investigação das ciências da vida e da saúde, Coimbra tem centros de verdadeira excelência, como o Centro de Neurociências e Biologia Celular, o Instituto Biomédico de Investigação da Luz e da Imagem e outros que não se referem por falta de espaço.

Neste enquadramento, qual é o futuro da Saúde numa cidade que se quis arrogar o título de "Capital da Saúde" mas que muito pouco ou nada tem feito para verdadeiramente o conquistar?

O Governo tem a velada intenção de reduzir o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC) a uma expressão mínima e, por isso, limita severamente a sua capacidade de investimento e o seu orçamento, com tremendas consequências para a qualidade e a quantidade dos cuidados prestados aos doentes e com a inerente diminuição de empregos públicos disponíveis.

Entre outras iniciativas, Coimbra deve lutar mais activamente para continuar a ser um polo de Saúde altamente diferenciado, para abrir a urgência dos Covões 24h/dia, para se tornar a referência nacional da área da Geriatria e para instalar urgentissimamente o novo serviço de Obstetrícia e Neonatalogia.

Coimbra deve lutar pela desconcentração de estruturas do Ministério da Saúde, como o INEM, a DGS, a ACSS e a IGAS.

Para que Coimbra não continue a perder importância na Saúde a nível nacional é fundamental que a cidade deixe de estar dividida em duas margens ‘em guerra’ e é necessário que a Câmara desenvolva uma estratégia na área da Saúde, um Plano Municipal de Saúde, que adopte a regra da ‘Saúde e Meio Ambiente em todas as políticas’ e que dedique uma atenção particular aos grupos mais vulneráveis.

O potencial mantém-se em Coimbra, mas está cada vez mais fragilizado. Vamos mudar alguma coisa?